segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Balanço Social Corporativo

Balanço Social Corporativo

Podemos dizer que o Balanço Social serve especialmente a dois propósitos: primeiro, é uma forma de comunicar publicamente à Sociedade quais ações a empresa têm realizado no que concerne as suas atividades de Responsabilidade Social – RS e de Sustentabilidade. Segundo, o Balanço Social é uma ferramenta de gestão para a própria empresa, em que a Alta Direção consegue visualizar e monitorar de que forma a sua gestão vem cumprindo com as metas e compromissos assumidos em relação à RS.
Para Ludícibus et al. (2000, p. 31), “o Balanço Social busca demonstrar o grau de responsabilidade social assumido pela empresa e assim prestar contas à sociedade pelo uso do patrimônio público, constituído dos recursos naturais, humanos e o direito de conviver e usufruir dos benefícios da sociedade em que atua”. Outro autor, Tinoco (2001, p. 14), apresenta um conceito mais amplo, de informação econômica e social, quando destaca que “Balanço Social é um instrumento de gestão e de informação que visa evidenciar, da forma mais transparente possível, informações econômicas e sociais, do desempenho das entidades, aos mais diferenciados usuários, entre estes os funcionários”.

Muito embora de cunho não obrigatório, o Balanço Social é considerado um instrumento de gestão que dá transparência as informações contábeis, sociais e ambientais, demonstrando o nível de preocupação e atenção que a empresa dá aos seus colaboradores, à comunidade onde está inserida e ao planeta. Atualmente analistas de mercado, investidores e órgãos de financiamento como o BNDES, BID, entre outros, exigem o Balanço Social como um dos documentos necessários para avaliar as realizações e projeções de uma empresa.

Não há um modelo fixo de Balanço Social, podendo variar de empresa para a empresa. Para o Instituto Ethos, é importante que no relatório existam informações sobre o perfil do empreendimento, histórico da empresa, seus princípios e valores, governança corporativa, diálogo com partes interessadas e indicadores de desempenho econômico, social e ambiental. Importante ressaltar que o Balanço Social mostra-se como uma ferramenta útil na divulgação e transparência das iniciativas promovidas pela empresa no interesse da sociedade (projetos sociais) e na promoção da responsabilidade social em nível local, nacional e global, entre outros indicadores de desempenho da gestão como geração de riqueza, produtividade e investimentos. No site do Ethos pode ser encontrado um modelo para download gratuito cujo conteúdo orienta as empresas a realizar o balanço social ou relatório de sustentabilidade: http://www.ethos.org.br/docs/conceitos_praticas/guia_relatorio/default.htm.
O mundo corporativo possui vários modelos para fazer o Balanço Social. Porém, no Brasil, os modelos mais utilizados são o do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase; o GRI da Global Reporting Initiative e o modelo do Instituto Ethos, que pode ser considerado como uma adaptação do GRI ao contexto brasileiro. Sem pretensão de esgotar o assunto, apresento neste texto uma análise comparativa entre os modelos Ibase, GRI e Ethos, procurando identificar em que medida esses modelos convergem ou divergem entre si.
Muito embora como ressaltado, não exista uma padronização para a elaboração do Balanço Social, o certo é que alguns requisitos são comuns entre todos os modelos. O resumo com o texto do principal responsável pela empresa abre o relatório e, em geral, deve conter os compromissos assumidos, as realizações, os insucessos e as dificuldades da empresa. Em seguida o relatório destaca o perfil do empreendimento, seu negócio, número de colaboradores, os demonstrativos contábeis já publicados, as metas e resultados do negócio, entre outros. Posteriormente é apresentado o histórico, a missão, evolução, princípios e a visão estratégica da empresa. Até aqui são fornecidas informações mais gerais e básicas sobre a empresa. A próxima etapa é de suma relevância no Balanço Social e trata de apresentar os indicadores de desempenho econômico (evolução e distribuição de riqueza); ambiental (impacto da atividade da empresa no meio ambiente); e social (políticas para a qualidade de vida, bem-estar dos colaboradores internos, direitos trabalhistas e direitos humanos); as ações com os stakeholders e ainda a visão de futuro da empresa. Por fim, a empresa insere os anexos que corroboram as informações prestadas no corpo do Balanço Social.
Destacados os requisitos comuns a todos os modelos de Balanço Social, passo a seguir, aos modelos que serão analisados.

  1. IBASE
O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE) foi fundado em 1981 e preocupado em garantir à sociedade a transparência das informações empresariais, criou um modelo padronizado de “prestação de contas” à sociedade. O modelo foi construído em parceria com pesquisadores de diferentes empresas e órgãos públicos e foi lançado em 1997, inclusive com o apoio da Comissão de Valores Mobiliários – CVM. No modelo Ibase a empresa detalha os as ações e os valores correspondentes à responsabilidade social, folha de pagamento, encargos sociais de funcionários, investimento em ações sociais como projetos em comunidades de baixa renda, ações ambientalmente responsáveis e a participação nos lucros. Basicamente a proposta do modelo do Ibase é obter um relatório padrão, conciso e transparente, cujas informações estão distribuídas na categoria 1)  organiza dados gerais da empresa; categorias 2 a 5) indicadores internos e externo; e categorias 6 e 7) outras informações.

O modelo Ibase passou por três revisões desde a sua criação e atualmente adota 43 indicadores quantitativos e 8 qualitativos e está dividido em 7 categorias.


1. Base de Cálculo
Informa sobre a geração de receitas, resultado operacional e folha de pagamento bruta.

2. Indicadores Sociais Internos
Investimentos em alimentação, educação, capacitação, saúde, etc. dos colaboradores.

3. Indicadores Sociais Externos
Investimentos da empresa na comunidade (projetos sociais em cultura, educação; etc.) e os tributos.

4. Indicadores Ambientais
Investimentos com educação ambiental, em projetos de despoluição, com o público interno e ou sociedade.

5. Indicadores do Corpo Funcional
Número de admissões, mulheres, negros, pessoas com deficiência, aprendizes.

6. Informações relevantes quanto ao Exercício da Cidadania Empresarial
Número de acidentes do trabalho, controle dos padrões de segurança e salubridade.

7. Outras Informações
Outras informações que a empresa julgar necessárias.

É importante destacar que o modelo Ibase não exige auditoria externa sobre as informações apresentadas, no entanto criou em 1998 o selo “Balanço Social Ibase/Betinho” (o ativista foi um dos fundadores do instituto) que assegura que a empresa seguiu as normas de preenchimento e divulgação previstas em seu modelo. Para receber o selo, o modelo exige ainda que na categoria 7 “Outras Informações”, a empresa declare expressamente a não utilização de trabalho infantil ou de trabalho análogo ou degradante, o não envolvimento com prostituição ou exploração sexual de crianças e adolescentes, o não envolvimento com a corrupção e o respeito à diversidade. O selo não é fornecido a empresas de armamentos, tabaco e bebidas alcóolicas.


  1.  Global Reporting Initiative  - GRI
A Global Reporting Initiative (Iniciativa Global para a Apresentação de Relatórios) surgiu em 1997 na união da organização não governamental norte-americana Coalition for Environmentally Responsible Economics - CERES e do Programa Ambiental das Nações Unidas, United Nations Environmental Programme - UNEP. Atualmente a GRI é uma organização independente e conta com a participação ativa de representantes das áreas de contabilidade, investimento, ambiente, direitos humanos, investigação e organizações do trabalho de várias partes do mundo. O seu objetivo é expandir seu modelo em empresas ao redor do mundo.

Basicamente, o Balanço Social pelo modelo GRI possui a seguinte estrutura: Visão e Estratégia (declaração da visão e da estratégia da organização referente à sua contribuição para o desenvolvimento sustentável; Perfil da Organização (nome, principais produtos e serviços, estrutura, mercados, porte e outros); Escopo do relatório (pessoa e dados para contato, período a que se referem as informações, data do relatório anterior, abrangência e outros); Perfil do relatório (critérios empregados na elaboração do relatório e dos indicadores); Estrutura de Governança; Engajamento das Partes Interessadas (relacionamento e procedimentos em relação às partes interessadas),  Políticas Abrangentes e Sistemas de Gestão, Sumário de Conteúdo da GRI (títulos dos capítulos do modelo, indicando a página e seus indicadores),  Indicadores de Desempenho.

O Modelo GRI apresenta vários indicadores distribuídos em número menor de categorias do que o modelo do Ibase e ainda indica os protocolos de coleta de informações pertinentes a cada uma: 1) desempenho econômico, 2) desempenho do meio-ambiente, 3) desempenho práticas trabalhistas e trabalho decente, 4) desempenho referente a direitos humanos, 5) desempenho Social relativo à Sociedade, e 6) desempenho referente à responsabilidade pelo produto.

Dentro de cada categoria de desempenho, o GRI aponta a adoção de indicadores específicos, como por exemplo, na categoria “desempenho social relativo à sociedade”, os aspectos a serem aferidos são cinco:

1. Comunidade
Natureza, escopo e eficácia de quaisquer programas e práticas para avaliar e gerir os impactos das operações nas comunidades, incluindo a entrada, operação e saída;

2. Corrupção
Percentual e número total de unidades de negócios submetidas a avaliações de riscos relacionados à corrupção;

3. Políticas Públicas
Posições quanto a políticas públicas e participação na elaboração de políticas públicas e lobbies;

4. Concorrência desleal - adicional
Número total de ações judiciais por concorrência desleal, práticas de truste e monopólio e seus resultados;

5. Conformidade essencial
Valor monetário de multas significativas e número total de sanções não-monetárias resultantes da não-conformidade com leis e regulamentos.


            Outra inovação do GRI é que ele também aborda os princípios para a elaboração do relatório: materialidade, inclusão dos stakeholders, contexto da sustentabilidade, abrangência e princípios para a qualidade do relatório: equilíbrio, comparabilidade, exatidão, periodicidade, clareza e confiabilidade. Não vamos neste texto explicitar os princípios e nem adentrar profundamente nas características de cada um, contudo é importante ressaltar que o relatório nos moldes do GRI tem aceitação em nível global e é ressaltado como um modelo mais específico e consistente com as exigência do mercado. O GRI passou em 2007 pela terceira revisão, gerando o modelo atual G3 (terceira geração) e diferente do modelo Ibase, o GRI aponta para a necessidade de realização de auditoria externa para atestar as informações prestadas no relatório.


  1. INSTITUTO ETHOS

Para a elaboração do relatório tendo como base o modelo Ethos, a empresa irá encontrar o misto entre o modelo GRI e a utilização de planilha do modelo Ibase. Vale dizer que os indicadores Ethos foram elaborados levando em conta o ciclo PDCA (de qual sou fã e recomendo) em que as ações são realizadas visando a melhoria contínua.

A estrutura do modelo do Instituto Ethos está dividida em 4 grupos de informações:

Grupo 1: Apresentação (missão e visão, mensagem do Presidente, perfil do empreendimento e setor da economia)
Grupo 2: A Empresa (histórico, princípios e valores, estrutura e funcionamento, e governança corporativa)
Grupo 3: A Atividade Empresarial (diálogo com partes interessadas e os indicadores de desempenho)
Grupo 4: Anexos (demonstrativo do Balanço Social - modelo IBASE -, iniciativas de interesse da sociedade - projetos sociais - notas gerais).

Especificamente no Grupo 3, o Ethos apresenta indicadores qualitativos e também quantitativos. Assim, por exemplo, no que se refere aos indicadores o modelo Ethos possui 7 indicadores, entre internos e também externos: 1) valores, transparência e governança, 2) publico interno, 3) meio-ambiente, 4) fornecedores, 5) clientes e consumidores, 6) comunidade, 7) governo e sociedade. Para cada indicador, o modelo Ethos indica aspectos a serem evidenciados, por exemplo:


Público Interno
1. Diálogo e participação
Relação com sindicatos; gestão participativa; e relações com trabalhadores terceirizados.

Público Interno
2. Respeito ao indivíduo
Trabalho infantil; trabalho forçado ou análogo ao escravo; e diversidade.

Público Interno
3. Trabalho decente
Cuidados com saúde, segurança e condições de trabalho; compromisso com o desenvolvimento profissional e a empregabilidade; comportamento frente a demissões; e preparação para aposentadoria.



CONCLUSÃO

            Apresentei de forma sucinta cada um dos modelos e sugiro, para maior aprofundamento, o estudo dos mesmos em seus respectivos sites cuja indicação segue ao final deste texto.

Pode-se notar, numa análise aproximada que, no que concerne aos indicadores Ambientais, Indicadores do Corpo Funcional e a Base de Cálculo e Informações, muito embora utilizem nomes diferentes que os designam, remetem ao mesmo tipo de informação a ser prestada. Por exemplo, os “indicadores ambientais” do Ibase equiparam-se tanto com os “indicadores de desempenho do meio ambiente” do GRI quanto do “meio ambiente” do Ethos. No próximo exemplo, os “indicadores do corpo funcional” do Ibase também se equiparam aos “indicadores de desempenho referentes ás práticas trabalhistas e trabalho decente” do GRI e ao “publico interno” do Ethos. Portanto, pode-se dizer que no tocante aos indicadores sociais – presentes nos três modelos – existem convergências.

            Já em se tratando das divergências entre os três modelos, podemos dizer que o modelo Ethos encontra equivalência no modelo GRI, porém distancia-se sobremaneira do modelo Ibase em quatro indicadores, a saber: Fornecedores, Consumidores e Clientes, Comunidade, Governo e Sociedade. Talvez o maior distanciamento que pode ser verificado entre o modelo Ibase em relação aos dois outros é que os dados são muito mais simples e sucintos, em contraposição ao GRI e Ethos, cujos indicadores possuem maior detalhamento de dados.

Destarte, é importante frisar que a escolha por um dos modelos está intrinsicamente associada com as estratégias previstas pela empresa com a divulgação das informações.

Naturalmente o modelo GRI por sua especificidade e por sua utilização em nível global, atrai mais a atenção do mundo corporativo devido à confiabilidade de seus princípios e o impacto de sua divulgação nos seus públicos de interesse. Vale frisar, no entanto, que a empresa poderá adotar não apenas um, mas dois modelos diferentes de balanço social. Poderá utilizar o modelo GRI, mais específico e complexo e, pari passu, o modelo do Ibase, que apresenta maior simplicidade e entendimento em diferentes setores da sociedade.  De qualquer forma, mesmo se optar pela construção do relatório pelo modelo mais simplificado do Ibase, vale a recomendação de utilizar os princípios do GRI para a elaboração e para a qualidade do relatório.

Como apontado anteriormente, não foi intenção desta autora esgotar o tema ou esmiuçar as características de cada modelo de forma exaustiva. Acredito que o ideal seja estudar o assunto diretamente nas organizações responsáveis pelos modelos aqui apontados: Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), Global Reporting Initiative (GRI) e Instituto Ethos. Todas essas organizações disponibilizam informações acerca de seus modelos e também oferecem cursos.

De qualquer forma, a guisa de conclusão, vale ressaltar que o Balanço Social, ou Relatório de Sustentabilidade, ou outra nomenclatura que se queira dar, é um “divisor de águas” no contexto da Responsabilidade Social Empresarial. É uma ferramenta que mensura e dá transparência ao desempenho da gestão nas dimensões ambientais, econômicas e sociais, tripé da sustentabilidade.
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A autora é formada em Administração e Mestrado pela Universidade de São Paulo-USP, pesquisa e trabalha com Responsabilidade Social, Educação Corporativa, proteção social para Pessoas com Deficiência e Terceiro Setor.

Cite a Fonte: MARÇOLA, C. Balanço Social Corporativo. São Paulo, in: temasderesponsabilidadesocial.blogspot.com, 2012.

Para maior detalhamento, consulte:
https://www.globalreporting.org/

E veja ainda o relatório da empresa NATURA, considerada um ícone na utilização do modelo GRI:
http://www2.natura.net/Web/Br/ForYou/Hotsites/Premios/download/case_balanco_social_2005.pdf





  

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